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Hello World

Hello World

Tenho pavor de me expor. A ideia de ser visto me causa calafrios e eu me escondo talvez a vida toda. Até que um dia, sozinho em casa, nasceu um súbito desejo de girar loucamente com os braços abertos ao som de King Crimson e o que aconteceu depois me fez questionar… bem… basicamente tudo.

Girei e girei feito um doido, coisa que não faço talvez desde criança. Na verdade a primeira vez em muito tempo que fiz qualquer coisa diferente de uma task com deadline a ser cumprida, com um propósito muito claro e segmentado em várias etapas elaboradas para o sucesso do projeto e sinergia de uma equipe… uffa. Não. Dessa vez eu só quis girar mesmo. Girar por girar. Uma inutilidade exuberante e, portanto livre. Livre de um propósito externo além de girar por girar. Porque deu vontade, porque sim.

Com os braços soltos ao vento, visão borrada e tontura iminente vem também a tentativa de esquecer que, com quase 30 anos, se cair e quebrar a bacia vou ter que ficar internado uns 3 meses esperando para fazer cirurgia pelo SUS.

Mas não precisei recorrer ao SUS porque foram apenas uns cinco segundos girando até que uma vergonha extrema e paralisante tomasse conta de mim. Isso me deixou putaço. Como assim vergonha? Do quê? E muitíssimo mais importante, de QUEM???????? Me senti indignadíssimo com isso e passei as próximas horas tendo uma discussão acalorada comigo mesmo tentando entender. Foi feia a coisa, quase saímos no tapa eu e eu.

Essa sensação constante de vergonha me acompanha há tanto tempo, que por mais que eu tentasse, não conseguia me lembrar quando isso começou. É como se sempre tivesse sido assim.

Dei então início à uma jornada para tentar entender. Fui até casa dos meus pais revirar fotos antigas em busca de alguma coisa e, conversando com minha mãe, acabei topando com algumas pistas e paradoxos interessantes.

Quando criança, disse ela, eu fazia de tudo pra chamar atenção, mas todos eram proibidos de dá-la. Eu dançava e cantava no meu canto e se eu desconfiasse que havia alguém olhando eu despencava a chorar.

Como na música Achilles Come Down - Gang of Youths: “You crave the applause yet hate the attention”

Mas não, nem sempre foi assim.

Deixa eu falar!

O ano era 2005, estava eu na minha primeira década de vida e carregava um impulso enorme de gritar “deixa eu falar!” toda vez que via um grupo de adultos conversando. Eu exigia a atenção que se daria à um Martin Luther King, e que eu tinha para dizer? Não tenho ideia, mas tenho quase certeza de que não tinha nada a ver com o assunto deles. Acho que eu só queria aproveitar a platéia já montada.

Também adorava pegar a velha câmera do meu avô e gravar com meu irmão o “É Tão Engraçado Que Eu Esqueci De Rir”. Apresentávamos à noite na TV da sala sem medo do amanhã. Quando não havia câmera, improvisávamos peças de teatro e danças ridículas e era legal ver as pessoas rolando de tanto rir.

Eu me considerava um inventor. Fazia trecos, levava para a escola e mostrava para os amigos e professores. Lembro que eles gostavam. Eu adorava ver seus olhos incrédulos diante de uma caixa de papelão andando sozinha ou o quanto ficavam vidrados nos jogos de corrida feitos garrafa pet e motor reciclado. Eu também sempre tocava cítara no show de talentos das gincanas da escola.

Fazer coisas e mostrar para as pessoas, isso me fazia acordar naturalmente antes das 6 am, eletrizado para aproveitar cada segundo do dia e criar o que me desse na telha. Esse era o sentido da minha existência.

Mas algo aconteceu. Aquela criança desapareceu e ninguém nunca mais o viu novamente, até hoje.

Uns 20 anos se passaram e ainda sinto que de certa forma aquele inventor, cientista e artista existe aqui dentro, em algum lugar, muito bem escondido, com um desejo enorme de sair e criar novamente. Mas os dias passam, um após o outro, e o medo termina vitorioso… até que eu resolvi girar igual um idiota.

Quem é O idiota?

Pensa comigo, estando eu absolutamente sozinho em casa, o olhar e julgamento de quem me traria vergonha? Foi para mim assustador perceber que existe um olhar interno nos julgando o tempo todo. Mas como isso é possível?

Ter vergonha de agir feito um idiota em público até faz um pouco de sentido. Pilotamos um traje biomecânico assustadoramente eficiente em aprender e se adaptar para sobreviver. Em uma época em que ser aceito na tribo significava sobrevivência e possibilidade de reprodução, fazer algo estranho, que assustasse o seu próprio bando poderia significar ser expulso e ter menos chances de sobreviver. Para nos proteger disso desenvolvemos o poder de sentir um terrível desconforto ao fazer qualquer coisa que possa ser minimamente estranha na nossa cultura. Esse aprendizado está inscrito no nosso DNA

Mas e quando estamos sozinhos? Longe do olhar de qualquer um?

Ao tentar entender melhor o que está acontecendo aqui acabei tropeçando em algumas perspectivas muito interessantes da filosofia existencialista.

Sartre e por que o inferno são os outros

Jean Paul Sartre, um dos maiores expoentes do existencialismo no séc XX escreveu em “O Ser e o Nada”, seu mais icônico trabalho:

“Se existe um Outro, seja ele quem for, onde quer que esteja, seja qual for a sua relação comigo… Tenho um fora, tenho uma natureza; minha queda original é a existência do outro.” (O Ser e o Nada).

Imagina que você está passando por um corredor, escuta uns barulhos estranho vindo de uma porta e resolve olhar pelo buraco da fechadura. A cena que você presencia sequestra totalmente a sua atenção. Por um segundo você até mesmo se esquece da sua própria existência, até que se dá conta não só da sua existência mas como também da possibilidade de outra existência flagradora do seu bisbilhoterismo. Você salta para trás de vergonha, tendo sido ou não flagrado, pois só a possibilidade de ser já é suficiente.

É como se mesmo sozinho, a ideia de um ‘outro’ já estivesse ali. Sempre ali. Invisível, mas presente, te assistindo, pronto para liberar toda a vergonha no menor sinal de ‘conduta inapropriada’. É uma cópia mental de um objeto que representa “o outro”, e que, mesmo sendo uma representação mental, continua atuando sempre no mesmo papel no mundo “real”, no sentido de ser fora do imaginário.

Sartre vê o mundo como uma coleção de objetos que podem ser classificados em Ser-em-si (Être-en-soi) e Ser-para-si (Être-pour-soi).

Ser-em-si é fechado. São materiais sem consciência de si mesmos. Sartre diz que são “opacos” e “completos”, pois simplesmente são o que são, sem a capacidade de alterar internamente por via da própria vontade e pensamento e, portanto, não tem liberdade. São passivos à existência que lhes foi imposta, sem possibilidade de alteração por livre e espontânea vontade. É a cadeira, a pedra, aquele seu tio desempregado no sofá, etc.

Já o ser-para-si é aberto. Não é limitado por uma existência imposta, mas sim está constantemente diante de uma escolha. A cada passo 360 possibilidades que uma pedra ou até mesmo um pássaro jamais seria capaz, mesmo ele tendo vida (pano pra manga para outra hora).

Ao mesmo tempo, essa liberdade quase infinita tem um preço: ela é obrigatória. Somos tão condenados a ser livres quanto o restante dos objetos é obrigado a não ser.

Somos pura possibilidade e transcendência, pois estamos constantemente impulsionando nosso ser para um vir-a-ser, uma possibilidade futura, que não existe ainda, mas pode, impulsionado por nossas escolhas. Somos puro vazio, somos transcendentes e angustiados. Somos angustiados justamente porque nascemos sem um manual de instruções dizendo nem por quê nem como vivemos.

Como diz o professor Clóvis de Barros Filho:

O vento venta, a maré mareia, o sapo sapeia e pau no seu c#.

Para entender a vergonha é preciso entender o que acontece quando o ser-para-si encontra outro ser-para-si.

A consciência não pode abarcar toda a infinidade de um ser transcendente. Portanto, o que fazemos o tempo todo é simplificar os objetos para que caibam na nossa mente limitada. Então o que acontece quando um ser transcendente é visto por outro é uma redução à um suposto ser-em-si. Somos simplificados e objetificados. Essa esmagadora simplificação quebra toda a transcendência do ego, fazendo com que nos resumamos a um ser-em-si, limitado e afastado da verdadeira natureza, que é ser livre e transcendental. Isso acontece quando somos focados pela consciência de alguém, seja de outro ou de nós mesmos.

Por isso fazer algo vergonhoso pode significar se reduzido a um ser-em-si, algo do qual a psique vai sempre fugir, pois sua verdadeira natureza é ser transcendente.

Na psicanálise de Jacques Lacan, o chamado Grande Outro, é a instância simbólica que representa a linguagem, as regras, as normas e as expectativas sociais. Ele é como um “campo” invisível que organiza como nos relacionamos com o mundo e com as outras pessoas.

Quando você faz algo, mesmo sozinho, o Grande Outro funciona como um juiz interno que avalia suas ações. Isso acontece porque, ao longo da vida, você internalizou essas normas sociais. É como se uma parte de você sempre estivesse pensando: “O que pensariam sobre isso?”

Enfim, pensar sobre isso me fez perceber que na verdade não é de girar que sinto vergonha. É de me expressar, mesmo sozinho. O que é absurdo. Resultado: sinto que não tenho ideia de quem sou. “Conhecer a si mesmo” é literalmente impossível para alguém incapaz de se expressar livremente, e não posso me permitir nem mais um dia assim.

O que me leva ao grande paradoxo que me persegue:

Por quê publicar isso ou aquilo?

Tenho estado no meio do fogo cruzado entre dois impulsos: Uma vontade imensa de criar e uma resistência tão imensa quanto.

Pra quê? Pra quem? É inútil. Ninguém precisa disso. Ta querendo o que, chamar atenção de quem? Vai fazer o quê com isso? Patético! - Mente do Elton.

Fato é que eu tenho tentado criar coisas só pra mim já tem um tempo e tenho falhado miseravelmente. Mas só o fato de escrever estas linhas pensando que isso pode potencialmente ser lido por outra pessoa torna tudo automaticamente diferente. Meus pensamentos se organizam, consigo ver uma linha de raciocínio se formando com intenção e muito mais clareza, felizmente ou infelizmente, de certa forma, fica melhor.

Fato é que apesar de hoje ainda detestar “ser visto”, algumas evidências sugerem que, mesmo inconscientemente, a criança ainda existe e anseia pelo palco. Como por exemplo tocar violino. Por que um quase recluso escolhe o instrumento mais agudo e alto possível? Fora a exigência das notas perfeitas. Um único deslize e você sozinho consegue cagar a música inteira.

Outra coisa é que por algum motivo me sinto muito confortável falando em público. Os seminários da faculdade eram os meus momentos preferidos, me sentia muito bem principalmente na parte do preparo. Gosto da forma como consigo articular as ideias quando sei que vou ter que apresentar.

Não acho que seja puro ego, mas sim, talvez uma atração por esse efeito quase mágico que existe ao fazer qualquer coisa que outra pessoa possa ver.

Gosto da forma como as ideias se organizam sozinhas quando sabem que serão expostas.

Já aconteceu de passar semanas sem receber ninguém em casa e seu corpo não dá sinal algum de energia para arrumar nada? Você até tenta mas parece que a energia simplesmente não existe. Você nem sabe por onde começar e tudo se embola na sua cabeça, qualquer movimento parece exaustivo e quase sempre termina com a desistência depois de, com muito esforço, ter conseguido a proeza de colocar dois ou três objetos no lugar. E no exato momento em que descobre que receberá uma visita você vira um Super Saiyajin e tudo faz sentido. Você olha para a bagunça e agora seu sobrenome é eficiência.

Produzir coisas para mim mesmo é como limpar a casa sem saber por onde começar. Um processo exaustivo, confuso, que quase sempre termina em desistência. Mas ao imaginar que outra pessoa pode ver, as ideias se alinham. É como se a possibilidade do olhar externo despertasse uma energia que, sozinho, eu não consigo acessar.

São incontáveis as vezes que tentei escrever essas linhas. E é a primeira vez que as palavras fazem pelo menos um pouco de sentido, só porque estou as escrevendo tendo em mente que isso será publicado e, portanto, tem o potencial de ser visto por outra pessoa.

Por que somos tão insensíveis conosco? Por quê nosso olhar tem tão menos importância do que o olhar do outro? É bizarro que até o suposto “olhar do outro” que existe dentro de nós parece ter muito mais poder do que o nosso próprio.

Não quero atenção de ninguém. Eu só preciso muito criar novamente, suspeito que um conhecimento valiosíssimo pode surgir com isso e, na verdade, estou publicando torcendo para ninguém ver. Mas publicar foi a única forma que consegui convencer meu cérebro primitivo a cooperar, pelo menos um pouco.

Este blog é para mim um ato de revolta contra O Grande Outro. A cada linha escrita, a cada projeto finalizado, a cada encontro com o mundo me sinto um pouco mais perto de mim mesmo. A vida é um suspiro e me recuso a passar por ela sem ter conseguido expressar tudo o que posso de todas as formas possíveis, seja sobre filosofia, tecnologia, arte, literatura e o que mais der na telha.

Acho pouco provável que algo que eu diga ou faça aqui vá ser de alguma utilidade para alguém, mas a ideia é essa, não precisa. Não se trata mais sobre ser útil. Se trata agora de retomar as rédias, estar cada vez mais perto de Ser, e se for para ser inútil, que seja inútil, livre e transcendente.


PS: Se leu até aqui, muito obrigado e muitíssimo bem vindo à cabeça de um neurótico obsessivo de vez em quando altamente funcional.


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